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ED Awards

Design Entrevistas | 25 Mai 2017

PORTO, DESTINO EUROPEU DO DESIGN

 

A distinção de Melhor Destino Europeu trouxe até ao Porto o reconhecimento de vários ingredientes que fazem da cidade um lugar especial. Um deles é a criatividade! Não é por isso de estranhar que, durante uma semana, de 23 a 27 de maio, o Porto se transforme, também, na capital europeia do design, cujo ponto alto será a cerimónia de entrega de prémios que distinguem os melhores exemplos de comunicação na Europa, a 27 de maio, no Teatro Rivoli. Os European Design Awards 2017 vão reconhecer os melhores exemplos de design de comunicação na Europa, em mais de 30 categorias a concurso, e o Porto será a cidade anfitriã, depois de Viena, Istambul, Colónia, Helsínquia, Roterdão, Estocolmo, Zurique ou Atenas. A programação é recheada e inclui exposições, visitas guiadas e workshops com alguns dos mais relevantes designers e estúdios da atualidade.
No encerramento dos ED Awards 2017, no sábado, a partir das 23 horas, acontece também a pré-abertura da exposição “Design for Porto”, que coloca em destaque a identidade gráfica da cidade, que arrecadou, em 2015, dois ED Awards.
A propósito da marca Porto., a ROOF entrevistou, na última edição, Nuno Nogueira Santos, responsável pela comunicação e promoção da Câmara Municipal do Porto, que falou da importância da cidade ter uma assinatura própria, distinta, com uma voz que se estenda às instituições, aos lugares e às pessoas.

 


Nuno Nogueira Santos ©Miguel Nogueira

 

De que forma a criação de uma marca, completa e coerente, concorre para elevar a imagem global de uma cidade?

Na verdade, a marca já existia. Ou melhor, os ingredientes da marca sempre cá estiveram. O que nunca lhe tinham dado era tratamento gráfico e uma estratégia. O que havia no Porto, até 2014, era um logótipo da instituição Câmara Municipal e havia depois a ideia de uma cidade que tinha marcas fortes como o vinho ou a arquitetura. Mas nada disto esteva cosido. Ao agregarmos essas componentes da marca, todas elas fortes, mas, no plano global, relativas, demos força a uma marca de cidade e ganham todos. Claro que para o fazer e para que a cidade se projete, enquanto tal, e disso todas as componentes da marca venham a beneficiar, é preciso ceder em algo. O que é novo, creio eu, é termos nós, Câmara, partido do princípio de que estávamos disponíveis para abdicar da institucionalidade, formalidade e até assinatura. A Câmara do Porto hoje não assina quase nada, a não ser papéis oficias, onde é estritamente necessário que o faça. Em tudo o resto, assina como a cidade. Quando o faz, promove o Porto em vez de se promover. Disse-o aos designers a quem passei o briefing e escrevi-o no livro da marca que editámos. Quisemos, propositadamente, criar uma confusão entre autarquia e cidade. Porque quanto mais nos confundirmos com a cidade, mais a autarquia tem a ganhar. A cidade será sempre melhor do que nós.

 

A este respeito, que preocupações estiveram sobre a mesa desde o início da presidência de Rui Moreira?

O atual presidente da Câmara do Porto nunca foi político. Mas, em contrapartida, tem um vasto pensamento sobre a cidade publicado. Nessas narrativas sempre encontrámos temas como a cultura, a coesão social e a economia. E encontrámos a marca também. Diria que quase todo o seu livro “Uma questão de carácter”, de 2009, se quisermos, é um tratado sobre a marca. Nessa medida, facilitou muito o trabalho da sua criação. Porque a mim, que me coube construir o briefing e passá-lo aos designers, tinha um extraordinário manual à disposição. Essas componentes, inclusivas, ricas, criativas, arrojadas, que implicam os temas da cultura, da coesão social e da economia, tinham que fazer parte da marca e, logo, a marca tinha que ser diversa e não monolítica.

 

Acredita que a marca "Porto." serviu como um paradigma para tantas outras cidades do país?

Tenho a certeza que sim. Há já cidades a fazer trabalhos semelhantes. Gosto de dar bons exemplos. Viseu é um. Mas há mais cidades que estão a trabalhar na marca, depois de terem percebido que o Porto tinha tido um enorme sucesso com a sua. Não cometo nenhum pecado se revelar que há mais do que uma grande cidade em Portugal que nos veio pedir ajuda para iniciar um processo semelhante. Ajudámos com grande orgulho. E também na América do Sul e até no Médio Oriente, a marca Porto já foi tida como referência. Uns pedem ajuda outros limitam-se a copiar…

 

Na sua opinião, o que há ainda a fazer a este respeito no território nacional?

Muito. Na verdade, Portugal tem grandes autores de design gráfico. Ainda há dias um espanhol me dizia que estamos muito à frente de Espanha. Mas concordou quando lhe disse que, sendo verdade, não somos tão bons a gerir marcas. E não somos. Em Portugal há duas ou três marcas, no máximo, que podem ser dadas como bons exemplos a nível global. E nenhuma é o próprio país. Pomos demasiado ênfase no design, na espetacularidade do desenho. Pouco na marca, na sua consistência e subsistência. Porque só o tempo consolida a marca. Não compreendo como as grandes empresas em Portugal mudam constantemente de marca. E Portugal é igual. Antes de fazer desenhos é importante construir um briefing que se baseie em valores duradouros.

 

Como surgiu a vinda dos European Design Awards para o Porto?

Em Setembro de 2014 lançámos a marca “Porto.” e o Eduardo Aires, da White Stúdio, que foi o autor, candidatou-a a vários prémios. A marca acabou por ser galardoada com um “lápis” nos D&AD Awards, em Londres, e com dois prémios nos ED Awards, que nesse ano eram entregues em Istambul. Fomos convidados a receber os prémios e quando viajámos de Londres para Istambul comecei a pensar no assunto. Já em Istambul, depois de recebermos o primeiro prémio na categoria de “Branding Implementation” e da surpresa de ganharmos também o “Best of Show”, que é o melhor trabalho do ano, perguntei ao presidente da organização, Demetrios Fakinos, que é grego, o que seria preciso para termos a cerimónia no Porto. Respondeu-me em inglês “we must talk with the local authorities”. Eu respondi-lhe a brincar “I´m the local authorities”. Ele deve ter achado piada e a conversa continuou naquela noite e depois por e-mail, Facebook e telefone. Como em 2016 a cerimónia estava já destinada a Viena, na Áustria, entrámos na competição para 2017, candidatando o Porto e competindo com cidades como Milão e Atenas. Mas, depois do Demetrios vir ao Porto, ficou decidido que seria aqui. Depois de analisar o dossier de candidatura e de conhecer a cidade, perguntou-me: “dá-me a razão mais forte para que o ED Awards seja no Porto”. Eu respondi que isso nos ajudaria a mostrar a importância do design e da marca, sobretudo entre os empresários portugueses e na comunidade académica. Creio que essa resposta foi decisiva.

 

Que atividades estão pensadas para 2017 na promoção da cultura visual da cidade e mesmo do design, enquanto disciplina transversal em áreas importantes para a dinâmica dos cidadãos e das empresas?

No âmbito dos ED Awards vamos ter tours pela cidade do design e pelos estúdios dos designers do Porto. Vamos ainda ter exposições sobre o melhor que se tem feito em matéria de design pela Câmara do Porto nos últimos quatro anos, com especial ênfase na área da cultura, onde nunca deixámos que o discurso visual fosse monolítico. Essa exposição será inaugurada no âmbito dos ED Awards e será uma montra internacional para os designers da cidade. Lembro-me de debater com o Paulo Cunha e Silva a questão da diversidade dos autores. O Paulo ajudou na concessão da marca “Porto.”, mas dizia que não podíamos deixar que uma marca forte afogasse tudo o resto. Acho que fizemos muito bem isso, trabalhando com muitos designers, muitos deles jovens e muito talentosos, do Porto. Além destas ações, e esse é um grande projeto para executar nos próximos anos, o Porto está a precisar de modernizar alguns dos seus elementos exteriores de comunicação. E essa é tarefa da arquitetura mas também do design. Estou a falar de sinalética, de mobiliário urbano de comunicação e de informação. Agora que começamos a consolidar a marca Porto, penso que deveríamos pensar a sério nisso, como objetivo para cumprir nos próximos quatro anos.

 

© Miguel Nogueira

© White Studio

© White Studio

 

Texto: Cátia Fernandes

Fotografia: Miguel Nogueira e White Studio

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